domingo, 17 de maio de 2015

Açorda Ortográfica

É oficial. O acordo ortográfico é obrigatório. Tal já era previsto. Seria impensável o governo voltar atrás na decisão. Desde o início que acordo sempre se tornou polémico por ser simplesmente incompreensível. De um ponto de vista lógico é válido: a língua portuguesa é a quinta mais falada no mundo, e como há porrada de brasileiros por aí - principalmente no distrito de Lisboa - é a filosofia do "junta-te ao clube dos mais fortes". A questão foi que desde o início, que os teóricos acharam o acordo uma inutilidade, e que de todos os PALOPs, apenas Portugal levava a sério a sua aplicação. Não se trata no entanto SÓ de baixar as calças e de renegar a identidade nacional sem qualquer justificação, querer aplicar soluções ortográficas que pertencem a outras culturas que não a nossa. É também um grande negócio. Em tempos de crise, quanto é que não valeu fazer novas edições de todos os grandes clássicos da literatura? E obrigar a novos livros, a novos programas escolares, a novas formações? É o pão para a boca de muita gente,

Obviamente que isto não interessa falar, afinal, o que é tirar uns c's aqui e ali ou uns p's? O futuro estratégico da nação fala mais alto. É pena é que a estratégia da nação de uns séculos para cá seja apoiada em falta de tomates para manter um rumo, mesmo que isso custe caro a alguns interesses privados ou nações supostamente amigas - amigas enquanto fizermos aquilo que nos dizem para fazer e fomos meninos bem comportados.

Não é de agora, mas para os que tinham esperanças de as coisas se endireitassem... a esses tenho a triste notícia que a partir do momento em o Egipto passa a Egito, é um passinho para que os egípcios sejam egícios. Ou os portugueses apenas parvos.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Semáforos

Qual é a cena com os semáforos a piscar? 

Provavelmente é uma questão técnica que eu não tenho conhecimento ou sequer capacidade intelectual para atingir mas mesmo assim como comum cidadão tenho curiosidade em saber porque é que se gasta dinheiro com semáforos com a luz amarela a piscar, fazendo com que seja instaurada a lei da selva e do salve-se quem puder em locais onde o trânsito é algo complicado. Provavelmente esta é uma coisa local - nem sei de quem será a responsabilidade, das autarquias ou de algum organismo do estado - e não se verifica no resto do país, mas aqui onde estou a viver presentemente, no concelho de Vila Franca, esta questão é uma constante. Seja depois da meia-noite, não sabendo também se os semáforos a piscar faz parte de um ritual de hibernação que acontece durante todas as noites; seja durante dias inteiros seguidos - também podem ir de férias.

Mas o que me intriga e irrita é... será que não era possível desligá-los? Sabemos que o Natal é quando o homem quer, mas os semáforos são uma iluminaçãod e Natal muito desengonçada e desproporcional. Apenas desliguem-lhes o botão, poupa uns cêntimos de luz eléctrica a todos nós - porque tudo neste mundo é pago pelo desgraçado que trabalha e paga os seus impostos. Deixo então aqui a consideração... vamos acabar com os semáforos a piscar e já agora, usar esta desculpa para acabar/desligar tudo o que não tem realmente utilidade neste mundo. Vá, neste país, comecemos pelo nosso país. Coisas como Assembleia da Républica e eleições e tribunais e hospitais e coisas assim. Vamos acabar com todas estas coisas que deveriam funcionar de forma correcta mas que só estão a piscar na luz amarela há muito, muito, demasiado, tempo.

domingo, 9 de novembro de 2014

Mediocridade

A capacidade que o ser humano tem para se submeter à mediocridade é impressionante. Acomoda-se com sítios que não gosta, trabalhos que o desgastam, pessoas que não suporta, tudo porque é suposto adaptar-se. Adaptar-se para sobreviver. Dito desta forma parece algo épico. A luta pela sobrevivência, numa sociedade e mundo frios e implacáveis. Na verdade é bem menos que isso. Esta adaptar para sobreviver muitas vezes implica fechar os olhos e ficar quieto no canto. Temos um mundo inteiro à nossa volta a dizer que as coisas estão difíceis, que não temos valor, que não há nada a fazer contra aquilo que está instituído. Então concordamos e acomodamo-nos.

"Há quem esteja pior do que eu"

"Tenho sorte em ter aquilo que tenho"

"Tenho que estar grato"

"Quem sou eu para querer mais?"

Grande parte destas coisas são verdade. Há sempre quem esteja pior que nós e até podemos ter sorte em ter aquilo que temos e sem dúvida que temos que estar gratos. Mas será que o estar grato impede que sejamos más pessoas por querer mais? Por ambicionar mais? Não estamos a falar de ambição egoísta desmedida para acumular bens materiais, afinal, isso é o que nos passam desde o berço. Dizem-nos que devemos ser médicos, engenheiros, advogados, coisas que nos colocam numa boa posição financeira e na própria sociedade, implicando, directa ou indirectamente, de que tudo o resto é inferior. Não nos promete um futuro seguro. E em busca de segurança vamos nós, renegando aquilo que realmente queremos. Na verdade, na maior parte das vezes, desconhecendo aquilo que realmente queremos. E sonhamos por lotarias, prémios e heranças como a solução para o vazio que temos dentro de nós, sem saber de que não precisamos de mais coisas para nos libertarmos. 

Precisamos de menos. Menos possessões, menos ideias pré-concebidas, menos medos, menos ego, menos ignorância.

E continuamos adormecidos na mediocridade que abraçámos. E não é difícil acordar desta mediocridade porque ela é a única realidadeque conhecemos. No entanto, quando isso acontece, normalmente por influência do exterior, acontecem duas coisas: Negação para que se volte a dormir bem acomodado com tudo aquilo que não nos serve ou pânico e a vontade de querer fugir o quanto antes. Querer ser o que se é realmente, viver isso, na maior parte das vezes sem saber o que isso realmente é, apenas saber que não é o estado actual. E mais uma vez olha-se para lotarias, prémios e heranças como a única coisa capaz de nos resgatar desta prisão onde crescemos. E de engano em engano, acaba-se por se desistir e voltar a ficar na mediocridade em que nos dizem pertencermos, pensando que é tarde demais para mudar o quer que seja. Que somos apenas um para mudar o quer que seja.

Não é tarde demais, nunca, e não somos apenas um.

O irónico é que para escapar à mediocridade não temos que ser super-humanos, não temos que ser sortudos, não temos que ser abençoados ou ajudados. Apenas temos que ser nós próprios.

sábado, 23 de agosto de 2014

Estupidez Natural

Haverá algo mais parvo do que colocar taxa em aparelhos que tenham memória para combater a pirataria? É certo que ainda não tivemos um governo que se aproveitasse desde que há democracia e de que cada vez que vão à casa de banho saem-se com coisas brilhantes em prol dos cidadãos como liberalizar o preço dos combustíveis – que ia fazer com que os preços baixassem, mas que os iluminados não previram que ia fazer com que subissem TODOS (ainda bem que temos os cartazes informativos na auto-estrada para nos mostrar que do Algarve a Guimarães tem tudo o mesmo preço, era uma informação que precisamos mesmo de ter). Também é certo que este governo atinge novos máximos de estupidez humana, mas esta nova taxa promete bater recordes.

Este imposto vai ter consequências ironicamente engraçadas:

1º - Vai subir a importação de tablets, telemóveis e discos e afins em catadupa – É bem mais barato mandar vir de Espanha do que comprar cá dentro. E depois o governo queixa-se das divisas a saírem do país e da fuga aos impostos – já agora fuga do país.
2ª – Penaliza quem compra os ditos artigos e não faz uso da pirataria, assim como penaliza duplamente quem realmente faz um esforço para comprar os seus álbuns, vai aos seus concertos, vai ao seu teatro e cinema porque é assim que se apoiam os artistas certo? Ao contrário desta taxa cujo destino não será certamente o artista lesado.
3ª – Mas o melhor mesmo é que legitima o download ilegal. Meus amigos, quem estiver com problemas morais por andar no sacanço, há fácil solução, basta ir comprar uma pen e depois fica com legitimidade para sacar o quer que seja, afinal já pagou a taxa.

No entanto, todos sabemos como funciona o português e o governo, apesar da sua estupidez natural, sabe que o português. Pode estrebuchar muito mas depois acaba por amochar e calar. A taxa vai-se tornar tão normal que ninguém se vai queixar e vai ser mais uma carga, estúpida, em cima do contribuinte.

Tenho uma ideia… porque não fazer uma taxa para cobrar a estupidez? Começávamos na assembleia da república e acabávamos em São Bento. Antes de chegarmos a meio, tínhamos o problema do défice resolvido.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Neura

Existem dias complicados. Dias em que tudo nos faz confusão, tudo nos mete raiva, tudo é uma razão para acender o nosso rastilho curto, bem curto. São aquelas coisas que o povo sabiamente soube de chamar de neura.

“Isso passa. É neura”.

Ou

“Estou com a neura, não falem comigo hoje”

Apesar destes pedidos, quanto mais se pede para que exista paciência, distância, cuidado, mais parece que aparecem coisas que testam os limites e se calhar não é difícil perceber porquê. Na vertente da lei da atracção, quanto mais se pede por algo, quanta mais concentração se focar em algo, mais ela vem até nós. Neste caso, estamos a concentrar-nos numa sensação de falta de paz, num sentimento de querer algo que não se tem, nas reacções violentas que nos apetece ter por falta de paciência. É exactamente o que vem até nós. O que leva a um exercício engraçado e irónico. Lutar para arranjar paciência quando não se tem e ainda assim, colocar à nossa volta todos os elementos necessários para a acabar com a mesma em três tempos. Também é o teste derradeiro.

É fácil sermos moralistas, apregoar aos quatro ventos a paz e o amor e a boa vontade entre homens, mulheres, animais e plantas quando a vida nos corre de feição. Até é fácil perdoar pequenas faltas que tenham contra nós ou contra os nossos princípios morais. Manter o mesmo entusiasmo em dia que nos falte a paciência… isso sim, isso é serviço. Também é parte da aprendizagem de humildade, conhecer os nossos limites e reconhecer quando podemos ser injustos ou incorrectos com aqueles que não merecem que descarreguemos neles.

A neura é apenas uma forma de distinguir quem é capaz de ser justo e injusto, independentemente das condições. Dito desta forma, até parece uma coisa essencial ao desenvolvimento social de cada humano. Se calhar até é.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Querer E Não Ter

Quantas vezes não se é vítima do consumismo exacerbado, da massificação do incentivo ao consumo? Até o iluminado do nosso primeiro-ministro se queixou no inicio do seu segundo ano de governo que o défice do orçamento de estado se devia aos portugueses não terem consumido tanto - isto depois de os acusar de viverem acima das suas posses.

O dinheiro desaparece sem deixar rasto, contas, comida, bebida, coisas para nos fazer sentir melhor, coisas supérfluas, coisas para comprar amor, carinho, coisas, coisas. São apenas coisas, não interessam, são apenas coisas, apenas para ter um fim em vista. O objectivo de preencher o vazio com alguma coisa, com alguma pessoa. Troca por trocar. Apenas é preciso dinheiro. É engraçado, o dinheiro é aquilo que compra tudo, menos aquilo que precisamos. A saúde que advém de uma paz de espírito, o amor verdadeiro, aquele que é tanto sentido, seja qual for a posição social ou o tamanho da conta bancária. Sem preço.

Mesmo assim, estamos numa sociedade que insiste em meter preço em tudo e que acaba por depender daqueles que se afundam nela para construir os seus alicerces. Aqueles que crédito após crédito, na tentativa de tapar um buraco abrem um outro maior, acabam por cair num círculo vicioso. Vampirizados, são vítimas da sua própria inconsciência ou ingenuidade. Querer e não ter, todas as coisas, coisas e apenas coisas, acabam por perder aquilo que tinham e ficar sem aquilo que queriam ter. Acabam por perder aquilo que não se consegue comprar em troca de coisas que não conseguiram pagar.

Vale mesmo a pena?

Talvez o princípio da sociedade moderna seja de escravizar sem correntes. A parte irónica é que são os escravos que se oferecem a essa condição.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Vazio

Há muita coisa mal neste mundo, muitas pessoas a fazerem coisas parvas, muitos espertalhões a aproveitarem-se dos mais fracos, dos mais desfavorecidos ou simplesmente dos mais distraídos. Resumindo, muito sumo para centenas de postas neste blog, mas mesmo assim, quando chega a hora de escrever, não surge nada. 

Branco.

Vazio.

E não se trata de bloqueio de escritor. Não desta forma. Isto é diferente. É como se tivesse chegado a um ponto em que não houvesse nada cá dentro para deitar cá para fora, nem mesmo sobre as maiores injustiças. Dormência. Confortável dormência. Seria caso para pedir ao mundo para parar de rodar apenas por uns momentos,  só até se conseguir recuperar algo que não se sabe bem o quê - seria tão fácil procurar por aquilo que se perdeu se apenas se soubesse o que era. 

São estes momentos de procura por algo interior que se volta, por momentos, para o exterior. Olhando um pouco cá para fora e para todas essas pessoas que referi antes, os espertalhões, os idiotas, os cínicos, os falsos, é impossível não questionar se estas mesmas personagens não se sentirão também elas vazias. Por exemplo, a classe política, muitas vezes aqui abordada e em grande parte conivente com o poder económico e esmagada à sua vontade, esmagando todo um povo, obrigando-o procurar pela sobrevivência num outro lado qualquer. Será que estes mesmos seres terão momentos em que se sentem vazios? Será que eles tem estes momentos de vazio? Mas a diferença seria... o vazio que tenho é sobre eles... será que eles sentem vazios sobre eles próprios? Ou será que a importância que os cargos para os quais foram eleitos ou apontados é de alguma forma uma prevenção para este vazio?

Perante o vazio será que dizem "recebo este dinheiro todo ao final do mês, tenho coisas até perder de vista, as pessoas respeitam-me, por isso... este vazio deve ser fome, vou jantar outra vez"? Se sim, talvez seja essa a razão do político/gestor/aldrabão ser um bicho que engorda com o tempo. Sempre a comer a ver se consegue tapar o vazio. Provavelmente comem tanto que têm que vomitar para comer outra vez, porque o raio do vazio não desaparece.

Divago. Os políticos/gestores/ladrões não sentem vazio porque isso seria partir do princípio de que eles olhariam interiormente ou que pelo menos estavam em contacto com aquilo que remotamente se parecesse com uma consciência. Se isso acontecesse, provavelmente suicidavam-se ou mudavam de profissão, já que as duas são inconjugáveis.