quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Reflexão Mais ou Menos Profunda Sobre O Dia de S. Valentim

Este dia pode ser comparado à época natalícia. Com forte teor de consumismo capitalista, este dia serve para nos lembrar daquilo que deveria existir durante todo o ano. Se em relação ao Natal se trata de amar o próximo e de termos um pouco de compaixão pelas pessoas em geral. Há o efeito perverso que este tipo de dias tem, mas é engraçada a forma como funciona ao contrário do Natal. Durante o ano, quase todas as pessoas desfavorecidas anseiam pelo Natal porque será provavelmente a única altura do ano em que podem comer algo quente. Na questão do dia dos namorados, todos aquele que não têm par desejavam que não houvesse um dia que os lembrasse de que não têm como escoar todo o seu amor – se bem que em muitos casos é mesmo o problema de escoar outra coisa.

Eu confesso, e vou ser brutalmente honesto quanto a este assunto, que também eu caí na tentação de tentar arranjar namorada apenas para poder exibir com um ar triunfante um sorriso sincero enquanto digo coisas como:

“Hoje fui jantar mais a minha namorada.”
“Ontem saí mais cedo para comprar uma prenda para a minha namorada”

Que diabos, eu nem me importava de dizer coisas como:

“Porra! Esqueci-me de comprar uma prenda para a minha namorada.”

E sempre foi um pouco neste sentimento que vivi o dia dos namorados. E por incrível, ainda não consegui passar esta data com uma namorada. Isto é, estar mesmo com ela. O que ainda faz com que se pareça com uma anedota cósmica. Mesmo quando podia estar com o meu par, o universo diz-me, não, não será desta. Vê se aprecias a ironia da situação. E realmente comecei a apreciar bem a ironia da situação, de tal forma que também pondero arranjar uma namorada só para acabar com ela no dia seguinte ao dia dos namorados. Deitar a língua de fora ao destino só para que ele saiba com quem se está a meter.

…

Ok, isso seria idiota, mas também como é que se espera que um gajo (ou gaja) se sinta depois de andar um ano inteiro a tentar encontrar uma namorada apenas por causa de um dia. Um dia em que não se sinta socialmente diminuído perante os seus pares (ou impares) e que diga:

“SIM, EU TENHO NAMORADA E NÃO LHE VOU OFERECER NADA PORQUE NÃO CEDO ÀS VOSSAS TÁCTICAS IMPERIALISTAS E CAPITALISTAS!”

Porque uma coisa é certa… quer se tenha namorada ou não, a pergunta que qualquer pessoa ouve no dia dos namorados é:
“Então o que vais oferecer à/ao tua/teu namorada/namorado?”
O que dá vontade de responder…
“Uma botija de oxigénio porque a enterrei viva. Mas não lhe digas nada, não quero estragar a surpresa.”

Mas não, isto é apenas um desabafo. Um faz-de-conta daquilo que gostaria que acontecesse. Porque o que acontece realmente é…
“Então o que é que vais oferecer à tua namorada?”
“Nada.”
“Oh, coitada. Não lhe dás nada…”
E nesta altura penso para mim mesmo na resposta que quero dar. Que não lhe dou nada porque não tenho namorada, porque no fundo, apesar da pessoa espectacular que sou e apesar do meu interior belo e apaixonante, que o mesmo está reservado e que é difícil chegarem a ele. Que provavelmente não é culpa do universo, do destino, ou até mesmo da minha pessoa ou de todas as outras pessoas, da sociedade em que me insiro. Que provavelmente não tenho porque simplesmente não tenho. Sem nenhum sentido nisso, apenas porque não aconteceu e que por isso, mais vale nem sequer pensar nisso e tentar ignorar este dia e fingir todas as coisas fofinhas à volta dele. E que nem vale a pena perguntar ou fazer comentários porque isso só me faz lembrar de algo que passo o resto do ano a ouvir.
O que eu acabo por dizer mesmo é…
“Pois é.”

Se eu acho que a hipocrisia do Natal é difícil de aguentar, a estupidez do dia dos namorados é quase impossível porque não interessa se tu és feliz, não interessa se fazes alguém feliz. Interessa apenas que tenhas alguém. Que compres uma casa, um carro, e 1,4 filhos. Que possas mostrar a todos que és alguém digno/a de encaixar na sociedade. E o principal passa ao lado.

Estares com alguém que te ama. Estares com alguém que amas.

Não é isso o mais importante?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Trabalho de Amigo

No passado sábado fui a um lançamento de um livro por parte de uma editora, sem saber que, simultaneamente, era também a comemoração do primeiro aniversário da editora. A sala estava composta e até tiveram que se ir buscar mais cadeiras para que todos pudessem estar presentes sentados no auditório, acabando por ficar algumas pessoas em pé na entrada. A coisa prometia. Na verdade, não prometia grande coisa porque também não haviam grandes expectativas. Estava presente apenas para dar apoio a uma querida amiga, que também participou no livro – que é uma compilação de textos de pessoas sobre um tema especifico, divididos entre três vertentes, prosa, poesia e a participações de crianças. Até aqui tudo bem. 

Quando é que as coisas começam a ficar estranhas? 

Quando eu reparo que a minha amiga tem que comprar uma cópia do livro, apesar de ter participado nele. Ok, é um bocado estranho, mas dada a conjectura actual, minimamente compreensível. 
10 euros? Um pouco puxado mas... pode ser que... livro com cerca de 80 páginas? Capa manhosamente amadora? Ok, mais uma vez. Crise. Poupar no papel, poupar no profissionalismo da apresentação gráfica do livro. Pelos vistos, a crise é tão bera que até chegou à qualidade de alguns dos textos. A sério. Faz parecer aquilo que escrevo tratados filosóficos. E eu escrevo muita merda marada. Mesmo... marada!

Bem, continuando. O que já não foi tão compreensível foi o que se seguiu, uma apresentação de cerca de quinze minutos com fotos de todos os lançamentos, com a música a ouvir-se ao fundo, lá muito ao fundo. Uma apresentação em Powerpoint. A uma certa altura, as fotos aceleram de tal forma que parece que se está andar num carrossel duma feira qualquer e a tentar tirar fotografias para o exterior – ok, é um exagero, mas é apenas para se ter ideia do que estou a falar. Provavelmente o autor da apresentação, viu que ainda faltavam muitas fotos e que era material para durar horas, senão dias, então teve que condensar tudo em pouco mais de quinze minutos. Gostei da mensagem final em que dizia algo parecido com “muitas mais fotos ficaram por mostrar” – O mal das máquinas digitais é que não limites de fotos por causa dos rolos.
Bem, pouco refeitos deste choque, chega o interlúdio (o primeiro), que ia separar o assinalar do primeiro aniversário, com o lançamento do livro propriamente dito. Vemos uma pequena rapariga com um microfone na mão, sendo anunciada como… eu nem sei como é que ela foi anunciada, tal não foi o choque! Lembro-me vagamente de pensar que ela ia recitar qualquer coisa do livro. Quando começa a rodar a pista instrumental “Trocas e Baldrocas” e a rapariga começa a cantar, eu só me recordo de pensar… “Ok, é oficial, estou noutra dimensão!”
Confesso que nesta altura só pedia para sair daquele momento, mas depois também um medo me invadiu:

"E... se eu não conseguir voltar? E se eu não conseguir encontrar o caminho de volta para a minha dimensão?
AAAaaaaaaaaaaah!"

Depois dessa primeira música... houve... uma segunda música! E quase não sobrevivi! Atenção, não ponho em causa a prestação da criança. Ela esteve lindamente, tal como esteve qualquer criança de 8 a 10 anos. Aliás, melhor, porque se eu tivesse a idade dela, nem morto me apanhavam frente a uma plateia cheia a cantar um embaraçoso Karaoke.

Finalmente, depois da cantoria, passámos então à segunda parte propriamente dita, onde foi feita a apresentação/lançamento do livro, com direito à história de como surgiu, e à leitura de alguns dos textos, com especial ênfase ao das crianças que... não quero lançar polémicas, mas... penso que eram todos filhos dos responsáveis pela editora e/ou colaboradores da mesma. E conforme eles foram lendo os textos... eu fui sabendo os nomes e apelidos, reconhecendo-os algures, algo começou a cheirar muito mal no reino da Dinamarca. E o pessoal está bem longe de lá! Ao que parece, ainda ia haver uma pausa para buffet para depois voltarem para mais, só que temendo o que podia aparecer por lá, tive mesmo que tentar sair sem olhar para trás. Tentei, mas não consegui. O meu organismo é muito suscéptivel a pequenas alterações. Deitar-me mais tarde, enervar-me, estar entusiasmo ou passar para outra dimensão, são coisas que normalmente o alteram. Como tal, a fome era tão negra que eu só parei depois de ter roubado uma chamuça a uma criança (não, não era a criança que teve a cantar) e de ter olhado para mim mesmo no reflexo de um espelho por perto, e ter gritado com revolta:

"No que é que tu te tornaste?! Num MONSTRO!!"

E corri a chorar e nunca mais ninguém me viu. Nem me viram, nem me pararam. Isto aconteceu no Sábado e eu só parei de correr hoje ao almoço. Estou a enviar esta posta de Badajoz. Julguei que aqui estava seguro.

Nota explicativa:
Não quero com isto desprestigiar o trabalho de uma editora e de todos os seus profissionais. Um ano, talvez um sonho realizado, mesmo nesta altura difícil. Ou sobretudo, nesta altura. É difícil cumprir sonhos e quando eles se realizam... É como o trabalho de um amigo nosso, que nos dá. Aquele feito/pago com o seu sangue, suor e lágrimas e do qual guardamos com grande carinho. Aquele que não interessa a quem não nos conhece.
Supostamente, a editora deveria ser mais orientada para o público e menos para os amigos. Mas, também há espaço para eles, neste mundo cão que é o mundo editorial. E não, a minha opinião não melhorou em relação a este mundo com esta experiência.