domingo, 9 de novembro de 2014

Mediocridade

A capacidade que o ser humano tem para se submeter à mediocridade é impressionante. Acomoda-se com sítios que não gosta, trabalhos que o desgastam, pessoas que não suporta, tudo porque é suposto adaptar-se. Adaptar-se para sobreviver. Dito desta forma parece algo épico. A luta pela sobrevivência, numa sociedade e mundo frios e implacáveis. Na verdade é bem menos que isso. Esta adaptar para sobreviver muitas vezes implica fechar os olhos e ficar quieto no canto. Temos um mundo inteiro à nossa volta a dizer que as coisas estão difíceis, que não temos valor, que não há nada a fazer contra aquilo que está instituído. Então concordamos e acomodamo-nos.

"Há quem esteja pior do que eu"

"Tenho sorte em ter aquilo que tenho"

"Tenho que estar grato"

"Quem sou eu para querer mais?"

Grande parte destas coisas são verdade. Há sempre quem esteja pior que nós e até podemos ter sorte em ter aquilo que temos e sem dúvida que temos que estar gratos. Mas será que o estar grato impede que sejamos más pessoas por querer mais? Por ambicionar mais? Não estamos a falar de ambição egoísta desmedida para acumular bens materiais, afinal, isso é o que nos passam desde o berço. Dizem-nos que devemos ser médicos, engenheiros, advogados, coisas que nos colocam numa boa posição financeira e na própria sociedade, implicando, directa ou indirectamente, de que tudo o resto é inferior. Não nos promete um futuro seguro. E em busca de segurança vamos nós, renegando aquilo que realmente queremos. Na verdade, na maior parte das vezes, desconhecendo aquilo que realmente queremos. E sonhamos por lotarias, prémios e heranças como a solução para o vazio que temos dentro de nós, sem saber de que não precisamos de mais coisas para nos libertarmos. 

Precisamos de menos. Menos possessões, menos ideias pré-concebidas, menos medos, menos ego, menos ignorância.

E continuamos adormecidos na mediocridade que abraçámos. E não é difícil acordar desta mediocridade porque ela é a única realidadeque conhecemos. No entanto, quando isso acontece, normalmente por influência do exterior, acontecem duas coisas: Negação para que se volte a dormir bem acomodado com tudo aquilo que não nos serve ou pânico e a vontade de querer fugir o quanto antes. Querer ser o que se é realmente, viver isso, na maior parte das vezes sem saber o que isso realmente é, apenas saber que não é o estado actual. E mais uma vez olha-se para lotarias, prémios e heranças como a única coisa capaz de nos resgatar desta prisão onde crescemos. E de engano em engano, acaba-se por se desistir e voltar a ficar na mediocridade em que nos dizem pertencermos, pensando que é tarde demais para mudar o quer que seja. Que somos apenas um para mudar o quer que seja.

Não é tarde demais, nunca, e não somos apenas um.

O irónico é que para escapar à mediocridade não temos que ser super-humanos, não temos que ser sortudos, não temos que ser abençoados ou ajudados. Apenas temos que ser nós próprios.

sábado, 23 de agosto de 2014

Estupidez Natural

Haverá algo mais parvo do que colocar taxa em aparelhos que tenham memória para combater a pirataria? É certo que ainda não tivemos um governo que se aproveitasse desde que há democracia e de que cada vez que vão à casa de banho saem-se com coisas brilhantes em prol dos cidadãos como liberalizar o preço dos combustíveis – que ia fazer com que os preços baixassem, mas que os iluminados não previram que ia fazer com que subissem TODOS (ainda bem que temos os cartazes informativos na auto-estrada para nos mostrar que do Algarve a Guimarães tem tudo o mesmo preço, era uma informação que precisamos mesmo de ter). Também é certo que este governo atinge novos máximos de estupidez humana, mas esta nova taxa promete bater recordes.

Este imposto vai ter consequências ironicamente engraçadas:

1º - Vai subir a importação de tablets, telemóveis e discos e afins em catadupa – É bem mais barato mandar vir de Espanha do que comprar cá dentro. E depois o governo queixa-se das divisas a saírem do país e da fuga aos impostos – já agora fuga do país.
2ª – Penaliza quem compra os ditos artigos e não faz uso da pirataria, assim como penaliza duplamente quem realmente faz um esforço para comprar os seus álbuns, vai aos seus concertos, vai ao seu teatro e cinema porque é assim que se apoiam os artistas certo? Ao contrário desta taxa cujo destino não será certamente o artista lesado.
3ª – Mas o melhor mesmo é que legitima o download ilegal. Meus amigos, quem estiver com problemas morais por andar no sacanço, há fácil solução, basta ir comprar uma pen e depois fica com legitimidade para sacar o quer que seja, afinal já pagou a taxa.

No entanto, todos sabemos como funciona o português e o governo, apesar da sua estupidez natural, sabe que o português. Pode estrebuchar muito mas depois acaba por amochar e calar. A taxa vai-se tornar tão normal que ninguém se vai queixar e vai ser mais uma carga, estúpida, em cima do contribuinte.

Tenho uma ideia… porque não fazer uma taxa para cobrar a estupidez? Começávamos na assembleia da república e acabávamos em São Bento. Antes de chegarmos a meio, tínhamos o problema do défice resolvido.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Neura

Existem dias complicados. Dias em que tudo nos faz confusão, tudo nos mete raiva, tudo é uma razão para acender o nosso rastilho curto, bem curto. São aquelas coisas que o povo sabiamente soube de chamar de neura.

“Isso passa. É neura”.

Ou

“Estou com a neura, não falem comigo hoje”

Apesar destes pedidos, quanto mais se pede para que exista paciência, distância, cuidado, mais parece que aparecem coisas que testam os limites e se calhar não é difícil perceber porquê. Na vertente da lei da atracção, quanto mais se pede por algo, quanta mais concentração se focar em algo, mais ela vem até nós. Neste caso, estamos a concentrar-nos numa sensação de falta de paz, num sentimento de querer algo que não se tem, nas reacções violentas que nos apetece ter por falta de paciência. É exactamente o que vem até nós. O que leva a um exercício engraçado e irónico. Lutar para arranjar paciência quando não se tem e ainda assim, colocar à nossa volta todos os elementos necessários para a acabar com a mesma em três tempos. Também é o teste derradeiro.

É fácil sermos moralistas, apregoar aos quatro ventos a paz e o amor e a boa vontade entre homens, mulheres, animais e plantas quando a vida nos corre de feição. Até é fácil perdoar pequenas faltas que tenham contra nós ou contra os nossos princípios morais. Manter o mesmo entusiasmo em dia que nos falte a paciência… isso sim, isso é serviço. Também é parte da aprendizagem de humildade, conhecer os nossos limites e reconhecer quando podemos ser injustos ou incorrectos com aqueles que não merecem que descarreguemos neles.

A neura é apenas uma forma de distinguir quem é capaz de ser justo e injusto, independentemente das condições. Dito desta forma, até parece uma coisa essencial ao desenvolvimento social de cada humano. Se calhar até é.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Querer E Não Ter

Quantas vezes não se é vítima do consumismo exacerbado, da massificação do incentivo ao consumo? Até o iluminado do nosso primeiro-ministro se queixou no inicio do seu segundo ano de governo que o défice do orçamento de estado se devia aos portugueses não terem consumido tanto - isto depois de os acusar de viverem acima das suas posses.

O dinheiro desaparece sem deixar rasto, contas, comida, bebida, coisas para nos fazer sentir melhor, coisas supérfluas, coisas para comprar amor, carinho, coisas, coisas. São apenas coisas, não interessam, são apenas coisas, apenas para ter um fim em vista. O objectivo de preencher o vazio com alguma coisa, com alguma pessoa. Troca por trocar. Apenas é preciso dinheiro. É engraçado, o dinheiro é aquilo que compra tudo, menos aquilo que precisamos. A saúde que advém de uma paz de espírito, o amor verdadeiro, aquele que é tanto sentido, seja qual for a posição social ou o tamanho da conta bancária. Sem preço.

Mesmo assim, estamos numa sociedade que insiste em meter preço em tudo e que acaba por depender daqueles que se afundam nela para construir os seus alicerces. Aqueles que crédito após crédito, na tentativa de tapar um buraco abrem um outro maior, acabam por cair num círculo vicioso. Vampirizados, são vítimas da sua própria inconsciência ou ingenuidade. Querer e não ter, todas as coisas, coisas e apenas coisas, acabam por perder aquilo que tinham e ficar sem aquilo que queriam ter. Acabam por perder aquilo que não se consegue comprar em troca de coisas que não conseguiram pagar.

Vale mesmo a pena?

Talvez o princípio da sociedade moderna seja de escravizar sem correntes. A parte irónica é que são os escravos que se oferecem a essa condição.