Existem dias complicados. Dias em que tudo nos faz confusão,
tudo nos mete raiva, tudo é uma razão para acender o nosso rastilho curto, bem
curto. São aquelas coisas que o povo sabiamente soube de chamar de neura.
“Isso passa. É neura”.
Ou
“Estou com a neura, não falem comigo hoje”
Apesar destes pedidos, quanto mais se pede para que exista
paciência, distância, cuidado, mais parece que aparecem coisas que testam os
limites e se calhar não é difícil perceber porquê. Na vertente da lei da
atracção, quanto mais se pede por algo, quanta mais concentração se focar em
algo, mais ela vem até nós. Neste caso, estamos a concentrar-nos numa sensação
de falta de paz, num sentimento de querer algo que não se tem, nas reacções
violentas que nos apetece ter por falta de paciência. É exactamente o que vem
até nós. O que leva a um exercício engraçado e irónico. Lutar para arranjar
paciência quando não se tem e ainda assim, colocar à nossa volta todos os
elementos necessários para a acabar com a mesma em três tempos. Também é o
teste derradeiro.
É fácil sermos moralistas, apregoar aos quatro ventos a paz
e o amor e a boa vontade entre homens, mulheres, animais e plantas quando a
vida nos corre de feição. Até é fácil perdoar pequenas faltas que tenham contra
nós ou contra os nossos princípios morais. Manter o mesmo entusiasmo em dia que
nos falte a paciência… isso sim, isso é serviço. Também é parte da aprendizagem
de humildade, conhecer os nossos limites e reconhecer quando podemos ser
injustos ou incorrectos com aqueles que não merecem que descarreguemos neles.
A neura é apenas uma forma de distinguir quem é capaz de ser
justo e injusto, independentemente das condições. Dito desta forma, até parece
uma coisa essencial ao desenvolvimento social de cada humano. Se calhar até é.
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