terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Trabalho de Amigo

No passado sábado fui a um lançamento de um livro por parte de uma editora, sem saber que, simultaneamente, era também a comemoração do primeiro aniversário da editora. A sala estava composta e até tiveram que se ir buscar mais cadeiras para que todos pudessem estar presentes sentados no auditório, acabando por ficar algumas pessoas em pé na entrada. A coisa prometia. Na verdade, não prometia grande coisa porque também não haviam grandes expectativas. Estava presente apenas para dar apoio a uma querida amiga, que também participou no livro – que é uma compilação de textos de pessoas sobre um tema especifico, divididos entre três vertentes, prosa, poesia e a participações de crianças. Até aqui tudo bem. 

Quando é que as coisas começam a ficar estranhas? 

Quando eu reparo que a minha amiga tem que comprar uma cópia do livro, apesar de ter participado nele. Ok, é um bocado estranho, mas dada a conjectura actual, minimamente compreensível. 
10 euros? Um pouco puxado mas... pode ser que... livro com cerca de 80 páginas? Capa manhosamente amadora? Ok, mais uma vez. Crise. Poupar no papel, poupar no profissionalismo da apresentação gráfica do livro. Pelos vistos, a crise é tão bera que até chegou à qualidade de alguns dos textos. A sério. Faz parecer aquilo que escrevo tratados filosóficos. E eu escrevo muita merda marada. Mesmo... marada!

Bem, continuando. O que já não foi tão compreensível foi o que se seguiu, uma apresentação de cerca de quinze minutos com fotos de todos os lançamentos, com a música a ouvir-se ao fundo, lá muito ao fundo. Uma apresentação em Powerpoint. A uma certa altura, as fotos aceleram de tal forma que parece que se está andar num carrossel duma feira qualquer e a tentar tirar fotografias para o exterior – ok, é um exagero, mas é apenas para se ter ideia do que estou a falar. Provavelmente o autor da apresentação, viu que ainda faltavam muitas fotos e que era material para durar horas, senão dias, então teve que condensar tudo em pouco mais de quinze minutos. Gostei da mensagem final em que dizia algo parecido com “muitas mais fotos ficaram por mostrar” – O mal das máquinas digitais é que não limites de fotos por causa dos rolos.
Bem, pouco refeitos deste choque, chega o interlúdio (o primeiro), que ia separar o assinalar do primeiro aniversário, com o lançamento do livro propriamente dito. Vemos uma pequena rapariga com um microfone na mão, sendo anunciada como… eu nem sei como é que ela foi anunciada, tal não foi o choque! Lembro-me vagamente de pensar que ela ia recitar qualquer coisa do livro. Quando começa a rodar a pista instrumental “Trocas e Baldrocas” e a rapariga começa a cantar, eu só me recordo de pensar… “Ok, é oficial, estou noutra dimensão!”
Confesso que nesta altura só pedia para sair daquele momento, mas depois também um medo me invadiu:

"E... se eu não conseguir voltar? E se eu não conseguir encontrar o caminho de volta para a minha dimensão?
AAAaaaaaaaaaaah!"

Depois dessa primeira música... houve... uma segunda música! E quase não sobrevivi! Atenção, não ponho em causa a prestação da criança. Ela esteve lindamente, tal como esteve qualquer criança de 8 a 10 anos. Aliás, melhor, porque se eu tivesse a idade dela, nem morto me apanhavam frente a uma plateia cheia a cantar um embaraçoso Karaoke.

Finalmente, depois da cantoria, passámos então à segunda parte propriamente dita, onde foi feita a apresentação/lançamento do livro, com direito à história de como surgiu, e à leitura de alguns dos textos, com especial ênfase ao das crianças que... não quero lançar polémicas, mas... penso que eram todos filhos dos responsáveis pela editora e/ou colaboradores da mesma. E conforme eles foram lendo os textos... eu fui sabendo os nomes e apelidos, reconhecendo-os algures, algo começou a cheirar muito mal no reino da Dinamarca. E o pessoal está bem longe de lá! Ao que parece, ainda ia haver uma pausa para buffet para depois voltarem para mais, só que temendo o que podia aparecer por lá, tive mesmo que tentar sair sem olhar para trás. Tentei, mas não consegui. O meu organismo é muito suscéptivel a pequenas alterações. Deitar-me mais tarde, enervar-me, estar entusiasmo ou passar para outra dimensão, são coisas que normalmente o alteram. Como tal, a fome era tão negra que eu só parei depois de ter roubado uma chamuça a uma criança (não, não era a criança que teve a cantar) e de ter olhado para mim mesmo no reflexo de um espelho por perto, e ter gritado com revolta:

"No que é que tu te tornaste?! Num MONSTRO!!"

E corri a chorar e nunca mais ninguém me viu. Nem me viram, nem me pararam. Isto aconteceu no Sábado e eu só parei de correr hoje ao almoço. Estou a enviar esta posta de Badajoz. Julguei que aqui estava seguro.

Nota explicativa:
Não quero com isto desprestigiar o trabalho de uma editora e de todos os seus profissionais. Um ano, talvez um sonho realizado, mesmo nesta altura difícil. Ou sobretudo, nesta altura. É difícil cumprir sonhos e quando eles se realizam... É como o trabalho de um amigo nosso, que nos dá. Aquele feito/pago com o seu sangue, suor e lágrimas e do qual guardamos com grande carinho. Aquele que não interessa a quem não nos conhece.
Supostamente, a editora deveria ser mais orientada para o público e menos para os amigos. Mas, também há espaço para eles, neste mundo cão que é o mundo editorial. E não, a minha opinião não melhorou em relação a este mundo com esta experiência.

domingo, 6 de novembro de 2011

Pensamento Positivo

É difícil pensar positivo. Ligamos a televisão e lá vem mais um ministro a anunciar cortes em benefícios sociais e aumento de impostos. Especialistas a dizer que 2012 será bem pior. Que a recuperação não será possível tão cedo. Crimes violentos por ninharias, assaltos, tiroteios, assassinatos. 

Eu tento pensar positivo, a sério que tento, mas a cada vez que ligo o rádio, não basta a música de merda que passa ciclicamente durante todo o dia, também as notícias passam ciclicamente. Como um mantra. Um mantra que nos mantem adormecidos com o pensamento sintonizado no negativismo.

Eu diria que é impossível pensar positivo. Hoje em dia, nos tempos em que vivemos. Fomos criados em abundância, foi-nos prometido o mundo, mas o mundo não era deles para prometer e nós comprámos com as nossas vidas essa ilusória promessa. A crise é uma oportunidade para nos encontrarmos, para deixarmos de fora aquilo que não precisamos, os valores que não precisamos. Mas é difícil pensar assim, isso é demsasiado positivo e a nossa mente continua sintonizada no negativo. Aliás, eu diria que eles nos fizeram esquecer o que é o positivo ou negativo. 

É negativo não podermos continuar a comprar coisas que não precisamos? 
É negativo ver que não interessa em quem se vote, não interessa em quem se ganhe, que as coisas seguem o rumo que alguém determinou que deveriam seguir? 
É negativo ter a noção que o ser humano comum, além de ser insignificante perante a grandeza imensurável do cosmos, é também ele insignificante perante os olhos dos que detém o poder económico e que manipulam todos os aspectos que têm influência na sua vida?

Se calhar não é fácil conviver com o negativo. Se calhar é preferível a ilusão da positividade inexistente do que a realidade negativa. Eles contam com isso. Contam com os limites que todos nós, os seres humanos comuns, temos. Passar a vida a trabalhar, sermos escravos de um trabalho que não nos diz nada e nos intervalos fazermos aquilo que gostamos, sendo que temos que roubar tempo às horas de sono para o fazermos.

É difícil pensar positivo. Porra, é difícil ter apenas um pensamento positivo que seja, porque já não sabemos o que é positivo ou negativo. Hoje em dia, o positivo entra em confronto directo com a liberdade dos outros. Queremos ser felizes a todo o custo, queremos comodidade. Melhor, maior, agora. Não interessa a pessoa a nosso lado, não falamos com ela de qualquer forma. Não interessa o mundo que destruímos, também iremos morrer cedo de qualquer forma.

A necessidade é a mãe da invenção, diz a sabedoria popular. Nós necessitamos de nos libertarmos das amarras que foram colocadas nas nossas camas quando nos puseram para dormir, precisamos de acordar do sono em que nos colocaram. Precisamos de questionar o porquê de as notícias nos controlarem, das rádios, da televisão. De tudo aquilo que nos dizem que precisamos e que no fundo só nos aprisiona e prende ainda mais. Necessitamos de nos reinventar, de ver o que somos, de nos aproximarmos das pessoas, de nos aproximarmos de todos aqueles que nos rodeiam e não estou a falar de familía apenas, mas de todos. Precisamos de nos unir, de nos encontrar a nós próprios. Pensar positivo não é fechar os olhos e fazer de conta que vai ficar tudo bem, que o governo, o FMI, a União Europeia, o Durão Barroso, o Obama, vão resolver todos os problemas que temos. Pensar positivo é ver quem nos manipula, quem nos tenta limitar através do poder económico, quem tenta possuir a nossa alma. Nós continuamos a ter valor, continuamos a ser mais que um mero número estatístico, apenas precisamos de desligar a televisão, desligar o rádio, desligar tudo aquilo que nos controla e viver.

Apenas viver. Da melhor forma que conseguirmos. E se não for com todo o conforto que achamos que merecemos, será com um pouco menos. Se não for com tantas pessoas que desejaríamos, será connosco próprios. De olhos abertos, sem amarras. E agir, viver, trabalhar. Não para os outros, mas para nós próprios, para o nosso futuro. Porque ninguém o constroi por nós. Isso é o que nos querem fazer crer. Que não somos capaz de o fazer sozinhos, que precisamos de um carro, casa, telemóvel, computador, televisão, rádio para estarmos integrados na sociedade. Que precisamos de outros que nos digam o que ouvir, o que ver, o que gostar, o que comer, o que pensar.

O pensamento positivo não está naquilo que vemos, está dentro de nós. E é difícil pensar positivo porque não fomos programados para isso pelos poderes vigentes. Porque não é suposto. Apenas temos que tomar controlo nas nossas mãos e fazê-lo. Por nós.


domingo, 24 de julho de 2011

O Mundo Em Que Vivemos

Já repararam?

Crise económica, convulsões sociais, revoltas. É inegável que o mundo em que vivemos está em profunda transformação. Não só a sociedade mas como também o mundo físico. Tempestades, cheias no Verão, seca no Inverno. É o tempo propício para as profecias, para o 2012, para as novas eras, para a crença generalizada que isto tudo vai-se danar e voltamo-nos para o Apocalipse, as Revelações, para os Maias, para os Evangélicos, para a Segunda Vinda, para Nostrodamus, ou os muitos nossos Bandarra e Agostinho da Silva, para todos aqueles que milhares, centenas ou dezenas de anos atrás previram que a evolução do ser humano iriam descambar, inevitavelmente, na sua destruição. Apesar de todos os avisos, de todas as descrições horrendas do fim dos dias, caminhamos orgulhosamente para esse fim. Não estou a dizer que deveríamos atirar-nos para o chão e arrepender-nos dos nossos pecados até porque se o todos o fizessemos, mais de metade o iria fazer apenas para tentar salvar a pele. Colhemos o que semeamos. Como pessoas, como raça humana. E agora é tarde demais para voltar atrás, já não há como. Apenas temos espaço para prosseguir um caminho em frente, diferente, daquele que os nossos governantes nos indicam, o caminho do sacrifício por uma economia de recursos falida, com a ilusao que daqui a uns anos estará tudo bem, quando os recursos na qual se baseiam estão no limite da extinção.

Esta conversa toda para quê?

A mudança virá, sem dúvida, talvez ela fosse inevitável pela nossa própria forma de agir/ser, ou talvez fosse apenas um ciclo que as nossas acções fizeram com que fosse antecipado. Uma coisa é certa, este modelo social/económico não resulta e está a dar as últimas porque este quadro já não tem mais espaço para ser escrito e provavelmente ou inevitavelmente, vai ter de ser apagado para se começar a escrever algo novo, com a esperança de não cometer os mesmos erros do passado. O problema é que o mundo em que vivemos não tem a memória curta, agora a espécie dominante que habita nele...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Ahhh Sócrates. Votar em ti, ou não votar em ti...eis a questão.

Acabaram de me convidar no Facebook para um grupo chamado “POR FAVOR NÃO VOTEM NO SÓCRATES”.

Bem a minha relação com o senhor primeiro ministro não é seguramente muito amistosa. O governo PS foi mau, ele foi mau em muita coisa, foi arrogante, mentiroso, e existe possibilidade de estar envolvido em actos criminosos.
Apesar disso recusei imediatamente entrar no grupo. Porque? Numa palavra acho uma ideia imbecil.

Sócrates tem TUDO para ter toda a gente contra ele. Mesmo tudo, tem tudo para que eu o odeie. Mas não sou capaz, porquê?

A oposição, em particular o PSD é de uma cretinice, as ideias são idiotas, os protagonistas não lhes ficam atrás.

Contratos verbais, aumento do IVA, que depois já não é aumento é passar produtos de um escalão para o outro, é perder na reforma quando se faz a malandragem de estar desempregado.

O senhor Miguel Relvas que diz que votar noutros partidos é “desperdiçar o voto”, parece um caniche a vir rosnar sempre que o Primeiro Ministro fala, e parece que fica excitado cada vez que diz que o primeiro ministro fala com luvas de boxe calçadas. Agora usam outra “terrorismo político”.

Podia falar aqui de tanta coisa imbecil que estes senhores fizeram, mas o mais ridículo de tudo é que por muito mau que o Sócrates seja, estes tipos são tão piores que de repente até o Sócrates não parece assim tão mau.

É como ter uma grande dor de barriga, é mau e uma pessoa só quer aliviar os intestinos. No entanto quando comparado uma tortura oriental a coisa nem parece tão chata.

Isto já para não falar que desde que me lembro como gente sempre se falou em problemas com divida, défice etc. etc. …e eu não tenho 6 anos. Têm a lata de dizer que a culpa é só dele?

Eu provavelmente não vou votar no Sócrates, mas o que me tira do sério em relação a grupos como este é que provavelmente muita daquela gente está com uma ânsia tão grande de se livrar dele que muito certamente se vão meter numa situação pior.
Isso e a vontade de ser do contra talvez, ou então o facto de não apreciar que me digam em quem devo ou não votar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Concurso

Não sei porquê mas estas presidenciais parece-me que é disputada por crianças do sexo masculino não muito seguras da sua masculinidade e que têm que fazer concursos para ver de todos quem tem a pila maior. A sério. Não há a porra de uma ideia transmitida que não seja acusar de falta de integridade de um candidato, sugestão de corrupção de outro, dizer que A é mais patriótico que B porque foi espancado pela PIDE, dizer que B é fascista porque teve uma nota de bom comportamento por parte da PIDE. E depois quando se fala de outra coisa além de atacar os outros candidatos, vem a demagogia toda.

"Eu vou fazer os possíveis e os impossíveis para lutar contra a pobreza."

"Eu vou estar do lado dos mais fracos."

Eu pensava que isto era umas eleições presidenciais mas afinal são eleições messiânicas. Querem eleger o próximo Cristo pela calada. As frases acima querem dizer nas entrelinhas que afinal:

"Eu vou amar-vos e ensinar-vos as virtudes da pobreza."

"A compaixão é a mais poderosa arma."

Eu sugeria em vez de votos, que eles fossem eleitos por provas. Do género... quem conseguisse curar uma colónia de leprosos, seria eleito Cristo da República Portuguesa. E se ficasse com lepra... era só esperar pelos próximos candidatos. 
Hum... se calhar ia haver um boom de leprosos em Portugal. Se calharm, o melhor é fazer mesmo um concurso para ver quem tem a pila maior. Se eles se calassem por um bocado, até acho que valia a pena. Faziam uma tour por todas as juntas de freguesia para que os presidentes de mesas de voto pudessem comprovar quem tinha a pila maior, sem qualquer estímulo, atenção. Depois de se dar a média final, estava assim decidido. Acho que era mais justo, já que também ninguém deve de ir votar de qualquer forma.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Porque Não Para Todos?

Acabou de chegar à minha secretária um comunicado de última hora do qual ainda se desconhece a veracidade. Ao mais alto rigor jornalístico, o documento contém o orçamento da assembleia da república de 2010 e incita ao linchamento público de todos os políticos, a começar nos que estão no governo. Apesar de gostar de linchar políticos, também tenho uma curiosidade que me obriga a investigar um pouco a razão desse linchamento. Ok... não preciso de razões para linchar políticos, eu sou é mesmo curioso, admito.
A minha curiosidade levou-me a procurar o orçamento da Assembleia da República para 2011, já a prever as medidas de austeridade. Como tal e para não ir no barco errado, fui mesmo à fonte, ou seja, o diário da república. Para já, esta coisa de democracia transparente tem muito que se lhe diga. Assim que se diz aos políticos que eles têm que ser transparentes, vai de colocar a coisa por artigos e alíneas e usar termos jurídicos para que a maior parte dos labregos ignorantes como eu não percebam lhufas do que estão a (tentar) ler. Sabem que mais cedo ou mais tarde as pessoas desistem, seja porque vem o fisco ou o tribunal levar-lhe o computador ou porque a luz é inevitavelmente cortada por falta de pagamento, e que essas mesmas pessoas vão acabar por preferir ocupar esse tempo precioso para ver os jornais desportivos ou as últimas movimentações nesse fascinante mundo da actividade social que é o jet set.
A primeira coisa que posso dizer é que... apesar da crise, continuam a ser muitos milhões juntos. Como já disse diversas vezes a diversas pessoas, quando a quantia passa os 1275 euros, eu não faço a miníma ideia do valor real da quantia. Aliás, nem dos próprios 1275 euros eu faço a miníma ideia da equivalência real em termos de valor (ou seja, em escudos). De qualquer forma, vou tentar salientar alguns dos pontos que acho mais flagrantes :

- Subsídio de Refeição - 619.720.00€
- Combustíveis e lubrificantes - 112.750.00€
- Vestuário e artigos pessoais - 83.750.00€
- Material de escritório - 358.070.00€
- Prémios, condecorações e ofertas - 155.740.00€
- Comunicações (englobando Internet, fax e voz) - 1.132.220.00€
- Transportes - 4.344.770.00€ (dividido em dois: Transportes Deputados - 3.963.650.00€; Transporte outras situações - 381.120.00€)
- Deslocações e Estadas - 1.537.216.00€ (dividido em dois: Deslocações Viagens - 902.229.00€; Deslocações Estadas - 634.987.00€)
- Outros trabalhos especializados - 3.434.655.45€ (dividido em três: Outros trabalhos especializados Diários da Assembleia da República - 71.470.00€; Serviços de restaurante, refeitório e cafetaria - 952.654,00€; Outros trabalhos especializados - 2.410.531,45€)

Tem mais uma série de coisas que não percebo, mas se fosse a enumerar essas, o blogspot não tinha espaço suficiente, por isso vamos nos manter por esta pequena amostra. Aproveito também para fazer a passagem com a actualidade política, as notícias dos mais variados quadrantes onde a ordem do dia (sim porque eles fazem e anunciam estas coisas à luz do dia, nem tentam esconder) é tentar safar-se às medidas de austeridade, sendo que os últimos desenvolvimentos foram por parte da região autónoma dos Açores, que através do seu presidente, fez saber que os cortes anunciados na função pública iriam ser compensados (sabe-se lá como) através de um fundo qualquer, evitando assim perdas nos salários dos funcionários. Depois de algum silêncio, o Governo afirma categoricamente que não haverá excepções de qualquer tipo embora admita que não tem poder para mexer com as decisões tomadas pelo executivo dos Açores. Vou fazer um esforço consciente para não comentar e não me dispersar mais sobre o assunto. 

E qual é o assunto? O assunto é austeridade. Peguem nos números e vejam se vêem alguma austeridade. É certo que não temos os do ano passado, e ainda bem, porque ainda podíamos culpar a Assembleia da República pela crise que estamos a viver. 
Sempre fui ensinado que se dizemos alguma coisa, temos que dar o exemplo. É certo que as pessoas que me ensinaram isso, muito frequentemente não o cumpriram. Ora, a malta do governo e a restante classe política deveria dar o exemplo, mesmo que saibamos que eles enchem a barriga à grande às escondidas, mas deveriam pelo menos ganhar mais alguma vergonha, se usassem a palavra austeridade e participassem em gastos monumentais como o pequeno exemplo indicado acima. Eu quero que a classe política mergulhe a fundo na austeridade. 

Eu quero que eles acordem com ela, que a comam durante o dia e que se deitem com ela. 

Não quero que tenham subsídio de alimentação, quero que levem sandes de casa, de manteiga durante três dias, fiambre num e queijo noutro - atenção, nada de sandes de queijo e fiambre, austeridade é austeridade! E não é necessário cantinas nem refeitórios. Máximo dos máximos, montem uma roulote no corredor principal, para as necessidades.

Não  quero cá subsídios para vestuário e artigos pessoais, não há artigos pessoais pagos pelo Estado porque assim deixam de ser pessoais e passam a ser públicos e aquela cambada de sacristas não vai devolver nada!

Não quero cá dinheiro gasto em material de escritório. Quero que roubem material de escritório. Quero que se faça uma corrente com os deputados europeus para que se envie material de escritório de Bruxelas para cá. Quero que o nosso país seja temido lá fora, de tal maneira que todos esvaziem as secretários assim que um português esteja nas imediações. Quero que seja de tal maneira que as medidas de segurança sejam tão fortes que os deputados portugueses tenham que usar a sua imaginação para lhes furtar clips e canetas e resmas de papel e impressoras e portáteis. Nós conseguimos. Se é para roubar e enganar o próximo, nós conseguimos sempre dar a volta por cima.

Não é preciso dinheiro em comunicações, internet, fax e telefone. Basta ligar a televisão para ver que por 19.90, temos tv por cabo, internet e telefone. Não há fax, mas há e-mails. É só fazer mais um esforço e pedir a algum eurodeputado para desviar algum scanner a um euro-colega e temos uma solução mais económica. E com a tv por cabo, se calhar, evita-se ausências em dias de jogos de Portugal. Assim até viam os jogos todos juntos, discutiam quando era falta ou não e levantavam-se todos juntos a gritar golo. Iria apelar à união entre os portugueses.

Eu não quero cá deslocações e estadas.O máximo que aceito é um passe social. Não é preciso motoristas, não é preciso dinheiro para combustíveis. Eu quero que eles andem todos de metro para serem todos assaltados e violados e espancados (não necessariamente por esta ordem), tal como qualquer outro português. Eu quero que eles fiquem sufucados no meio do sovaco alheio quando o metro está cheio. Quero que sejam molhados por um fogareiro, quando esperam pelos autocarros. Eu quero que eles andem a pé, que corram para fazer exercício e para melhor fugir às quadrilhas que andam por aí à solta. E essa história de estadas... isso tem que acabar. Deputados não se desloca. As coisas é que se deslocam até ele. Se tem família, a família que vá até ele; se tem amante, a amante que pague o hotel; se tem gato, o gato que pague o gatil.

Eu quero que o nosso país seja novamente respeitado no exterior. Quando houver cá mais alguma cimeira, eu quero que os presidentes e primeiros-ministros dos países participantes saiam de cuecas do edifício. Quero que paguem portagens para sair do edifício, quero que paguem portagens para entrar no aeroporto. Quero os aviões desmontados por completo quando tiverem para se ir embora. 

Quero que façam todos os possíveis e impossíveis para não gastarem o que não têm, que cortem nas despesas desnecessárias. Quero que deixem de comer para dar de comer aos seus filhos. Quero que a luz, água seja cortada. Quero que sejam despejados das suas vivendas e apartamentos. Quero que o carro seja recolhido pela o stand de automóveis. Quero que se deitem a pensar como hão-de sair do buraco em que estão metidos, quero que passem a noite em branco a pensar em como hão-de sair do buraco em que estão metidos e quero que encontrem essa mesma saída quando for hora de se levantarem, mesmo sabendo que a solução não está ao alcance.

Quero que eles passem pelo mesmo que muitos portugueses passam há muito tempo e por aquilo que muitos mais vão passar no futuro. Não são portugueses também? A austeridade é para alguns... porque não para todos?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

As Diversas Faces da Mesma Crise

Eu tentei passar ao lado da tentação de falar da actual situação económica e dos responsáveis por essa mesma situação. Eu juro que tentei... com força e afinco... mas não dá. Os telejornais dedicam-lhe meia hora do seu espaço. De manhã, á hora do almoço e à noite, como o substituto eleito do 11 de setembro, furacão Katrina, terramoto no Haiti, enchurradas na Madeira, o Freeport. Se fosse suficientemente paranóico poderia dizer que estão a tentar-nos manipular com distrações. A mão do ilusionista faz movimentos estranhos, captando a atenção da plateia, enquanto a outra, faz o truque que a vai surpreender, mesmo estando ali à vista de todos. Será sempre assim, mas não é dessa condição que quero falar. Quero fazer a vontade àqueles que querem que se ouça, fale e pense na crise. 

Por todo o lado, governos tomam medidas de austeridade, cortes aqui, cortes ali. Com algumas ténues diferenças, todos os países apoiam-se sempre no mesmo, o contribuinte para suportar o peso excessivo que o estado representa no défice do país. É sabido que quando há grandes crises ou até mesmo depressões económicas, há também - sempre - quem lucre milhões. Mas por muito que possa parecer estranho, não são esses que me revoltam. Que nas sombras, têm as suas influências, como teias (ou mesmo tentáculos) têm um grande alcance para fazer mover as peças/pessoas necessárias para cumprir os seus objectivos. É preciso alguma inteligência, mesmo que seja usado para o... mal, chamemos-lhe assim. No entanto, aqueles que me irritam são os chico-espertos. Acho que não seja um exclusivo da nossa nação, mas por vezes tenho a impressão de que sim. 
Um governo que aumenta impostos alegando ser a única forma de combater o défice, não cortando na despesa e mantendo gastos farónicos com tachos para os boys acho que é uma boa súmula daquilo que quero dizer. Embora pudessem ter braços compridos para fazer as suas coisas das sombras, este tipo de indivualidade prefere fazer as coisas às claras apenas porque é preguiçoso.

- 3000€ de ordenado para gestor público, isso não vai dar bandeira?
- Não, pá. Eles já estão tão habituados que não dizem nada. E se disserem, sai uma notícia mas depois fica tudo na mesma.
- Se for assim... então está bem.
- Porreiro, pá.

Há tanta coisa feita às claras, no que diz respeito a vencimentos chorudos, a festas, a contratos publicitários, tanta obscenidade, tanto insulto aqueles que trabalharam toda uma vida e que têm uma reforma de 300€, que se eu fosse a enumerar, não saíria daqui antes do Natal.

Só me consigo rir, pensando na ironia de uma frase feita de certos políticos uns tempos atrás. Políticos que estavam no poder e agora também, que diziam que era difícil encontrar bons ministros que se sujeitassem às pressões que são inerentes ao cargo que ocupam por  um vencimento baixo, comparando com o sector privado. Então... temos ministros incompententes porque aqueles que são mesmo bons não se estão para sujeitar à má vida. No entanto, os ministros incompententes que se sujeitaram  a tal, depois de saírem do governo têm dois destinos:

- Ou vão para empresas privadas às quais as suas decisões afectaram positivamente (atirando dois nomes ao acaso, Lusoponte, Galp e Mota-Engil, perfeitamente aleatórios);
- Ou vão para gestores públicos, receber mais dinheiro do que aquele que estavam a receber como ministro, não tendo aumentado a sua competência para esse .

Se eu fosse fanático de futebol diria que, a situação do estado Português é como a da Sporting. A academia deles é muito apetecida porque de lá sairam grandes jogadores, como Figo, Ronaldo, Quaresma, Nani, etc. Jogadores que depois de lá jogar, deram o salto para os milhões. Se Portugal fosse o Sporting, eu diria que  o objectivo dos jogadores não é ajudar o Sporting a ser campeão, mas apenas usá-lo como trampolim para os milhões. O Sporting não ganha, os chulos orientam-se bem orientados, e o adepto sonha em mudar de clube, porque já sabe que mesmo mudando de treinador, de jogadores, de presidente... o que vem a seguir, é sempre pior.