quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Porque Não Para Todos?

Acabou de chegar à minha secretária um comunicado de última hora do qual ainda se desconhece a veracidade. Ao mais alto rigor jornalístico, o documento contém o orçamento da assembleia da república de 2010 e incita ao linchamento público de todos os políticos, a começar nos que estão no governo. Apesar de gostar de linchar políticos, também tenho uma curiosidade que me obriga a investigar um pouco a razão desse linchamento. Ok... não preciso de razões para linchar políticos, eu sou é mesmo curioso, admito.
A minha curiosidade levou-me a procurar o orçamento da Assembleia da República para 2011, já a prever as medidas de austeridade. Como tal e para não ir no barco errado, fui mesmo à fonte, ou seja, o diário da república. Para já, esta coisa de democracia transparente tem muito que se lhe diga. Assim que se diz aos políticos que eles têm que ser transparentes, vai de colocar a coisa por artigos e alíneas e usar termos jurídicos para que a maior parte dos labregos ignorantes como eu não percebam lhufas do que estão a (tentar) ler. Sabem que mais cedo ou mais tarde as pessoas desistem, seja porque vem o fisco ou o tribunal levar-lhe o computador ou porque a luz é inevitavelmente cortada por falta de pagamento, e que essas mesmas pessoas vão acabar por preferir ocupar esse tempo precioso para ver os jornais desportivos ou as últimas movimentações nesse fascinante mundo da actividade social que é o jet set.
A primeira coisa que posso dizer é que... apesar da crise, continuam a ser muitos milhões juntos. Como já disse diversas vezes a diversas pessoas, quando a quantia passa os 1275 euros, eu não faço a miníma ideia do valor real da quantia. Aliás, nem dos próprios 1275 euros eu faço a miníma ideia da equivalência real em termos de valor (ou seja, em escudos). De qualquer forma, vou tentar salientar alguns dos pontos que acho mais flagrantes :

- Subsídio de Refeição - 619.720.00€
- Combustíveis e lubrificantes - 112.750.00€
- Vestuário e artigos pessoais - 83.750.00€
- Material de escritório - 358.070.00€
- Prémios, condecorações e ofertas - 155.740.00€
- Comunicações (englobando Internet, fax e voz) - 1.132.220.00€
- Transportes - 4.344.770.00€ (dividido em dois: Transportes Deputados - 3.963.650.00€; Transporte outras situações - 381.120.00€)
- Deslocações e Estadas - 1.537.216.00€ (dividido em dois: Deslocações Viagens - 902.229.00€; Deslocações Estadas - 634.987.00€)
- Outros trabalhos especializados - 3.434.655.45€ (dividido em três: Outros trabalhos especializados Diários da Assembleia da República - 71.470.00€; Serviços de restaurante, refeitório e cafetaria - 952.654,00€; Outros trabalhos especializados - 2.410.531,45€)

Tem mais uma série de coisas que não percebo, mas se fosse a enumerar essas, o blogspot não tinha espaço suficiente, por isso vamos nos manter por esta pequena amostra. Aproveito também para fazer a passagem com a actualidade política, as notícias dos mais variados quadrantes onde a ordem do dia (sim porque eles fazem e anunciam estas coisas à luz do dia, nem tentam esconder) é tentar safar-se às medidas de austeridade, sendo que os últimos desenvolvimentos foram por parte da região autónoma dos Açores, que através do seu presidente, fez saber que os cortes anunciados na função pública iriam ser compensados (sabe-se lá como) através de um fundo qualquer, evitando assim perdas nos salários dos funcionários. Depois de algum silêncio, o Governo afirma categoricamente que não haverá excepções de qualquer tipo embora admita que não tem poder para mexer com as decisões tomadas pelo executivo dos Açores. Vou fazer um esforço consciente para não comentar e não me dispersar mais sobre o assunto. 

E qual é o assunto? O assunto é austeridade. Peguem nos números e vejam se vêem alguma austeridade. É certo que não temos os do ano passado, e ainda bem, porque ainda podíamos culpar a Assembleia da República pela crise que estamos a viver. 
Sempre fui ensinado que se dizemos alguma coisa, temos que dar o exemplo. É certo que as pessoas que me ensinaram isso, muito frequentemente não o cumpriram. Ora, a malta do governo e a restante classe política deveria dar o exemplo, mesmo que saibamos que eles enchem a barriga à grande às escondidas, mas deveriam pelo menos ganhar mais alguma vergonha, se usassem a palavra austeridade e participassem em gastos monumentais como o pequeno exemplo indicado acima. Eu quero que a classe política mergulhe a fundo na austeridade. 

Eu quero que eles acordem com ela, que a comam durante o dia e que se deitem com ela. 

Não quero que tenham subsídio de alimentação, quero que levem sandes de casa, de manteiga durante três dias, fiambre num e queijo noutro - atenção, nada de sandes de queijo e fiambre, austeridade é austeridade! E não é necessário cantinas nem refeitórios. Máximo dos máximos, montem uma roulote no corredor principal, para as necessidades.

Não  quero cá subsídios para vestuário e artigos pessoais, não há artigos pessoais pagos pelo Estado porque assim deixam de ser pessoais e passam a ser públicos e aquela cambada de sacristas não vai devolver nada!

Não quero cá dinheiro gasto em material de escritório. Quero que roubem material de escritório. Quero que se faça uma corrente com os deputados europeus para que se envie material de escritório de Bruxelas para cá. Quero que o nosso país seja temido lá fora, de tal maneira que todos esvaziem as secretários assim que um português esteja nas imediações. Quero que seja de tal maneira que as medidas de segurança sejam tão fortes que os deputados portugueses tenham que usar a sua imaginação para lhes furtar clips e canetas e resmas de papel e impressoras e portáteis. Nós conseguimos. Se é para roubar e enganar o próximo, nós conseguimos sempre dar a volta por cima.

Não é preciso dinheiro em comunicações, internet, fax e telefone. Basta ligar a televisão para ver que por 19.90, temos tv por cabo, internet e telefone. Não há fax, mas há e-mails. É só fazer mais um esforço e pedir a algum eurodeputado para desviar algum scanner a um euro-colega e temos uma solução mais económica. E com a tv por cabo, se calhar, evita-se ausências em dias de jogos de Portugal. Assim até viam os jogos todos juntos, discutiam quando era falta ou não e levantavam-se todos juntos a gritar golo. Iria apelar à união entre os portugueses.

Eu não quero cá deslocações e estadas.O máximo que aceito é um passe social. Não é preciso motoristas, não é preciso dinheiro para combustíveis. Eu quero que eles andem todos de metro para serem todos assaltados e violados e espancados (não necessariamente por esta ordem), tal como qualquer outro português. Eu quero que eles fiquem sufucados no meio do sovaco alheio quando o metro está cheio. Quero que sejam molhados por um fogareiro, quando esperam pelos autocarros. Eu quero que eles andem a pé, que corram para fazer exercício e para melhor fugir às quadrilhas que andam por aí à solta. E essa história de estadas... isso tem que acabar. Deputados não se desloca. As coisas é que se deslocam até ele. Se tem família, a família que vá até ele; se tem amante, a amante que pague o hotel; se tem gato, o gato que pague o gatil.

Eu quero que o nosso país seja novamente respeitado no exterior. Quando houver cá mais alguma cimeira, eu quero que os presidentes e primeiros-ministros dos países participantes saiam de cuecas do edifício. Quero que paguem portagens para sair do edifício, quero que paguem portagens para entrar no aeroporto. Quero os aviões desmontados por completo quando tiverem para se ir embora. 

Quero que façam todos os possíveis e impossíveis para não gastarem o que não têm, que cortem nas despesas desnecessárias. Quero que deixem de comer para dar de comer aos seus filhos. Quero que a luz, água seja cortada. Quero que sejam despejados das suas vivendas e apartamentos. Quero que o carro seja recolhido pela o stand de automóveis. Quero que se deitem a pensar como hão-de sair do buraco em que estão metidos, quero que passem a noite em branco a pensar em como hão-de sair do buraco em que estão metidos e quero que encontrem essa mesma saída quando for hora de se levantarem, mesmo sabendo que a solução não está ao alcance.

Quero que eles passem pelo mesmo que muitos portugueses passam há muito tempo e por aquilo que muitos mais vão passar no futuro. Não são portugueses também? A austeridade é para alguns... porque não para todos?

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