sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cultura

Com que então... a RTP2 vai com a porca. 

Não deixa de ser engraçado, o canal português que mais ênfase dá à cultura, à arte, às modalidades desportivas que não o futebol, à informação/documentários de qualidade, seja o sacrificado.  

Engraçado de uma forma deprimentemente irónica.

Basta tentarmos ver um pouco com mais atenção.

Em Portugal, a música não é cultura, não tendo o mesmo valor de imposto IVA que um livro, por exemplo. É certo que é uma questão de tempo até que seja tudo nivelado pelos 30% de IVA que o governo inevitavelmente vai estabelecer num futuro mais próximo.

Em Portugal, não há problema de um primeiro-ministro ser condecorado pelo seu serviço à pátria mesmo que a sua governação tenha levado a pátria (ou pelo menos ajudado) a um buraco mais fundo.

Em Portugal, não há problema de um primeiro-ministro mentir para todo o mundo, afirmando ter visto as armas de destruição maciça no Iraque quando elas não existiam. Nem há problema de recompensar esse visionário com o cargo de presidente da Comissão da Europeia, se bem que o cargo não foi uma recompensa pela visão que teve e sim a razão.

Em Portugal, em vez de fazer reformas administrativas profundas e de acabar com os tachos das fundações e parcerias público-privadas, é escolhida a difícil tarefa de aumentar impostos e de sufocar a economia. Se o governo fosse um médico, decidiria cortar a perna ao paciente por se encontrar gangrenar, em vez de simplesmente tirar o garrote que está a impedir a circulação de sangue.

Em Portugal, criam-se e aprovam-se leis pelas mesmas pessoas que vão beneficiar das mesmas nos seus trabalhos part-time (porque ser deputado é algo tão reles, que é necessário ser também trabalhar noutro lado qualquer para garantir a sobrevivência).

Em Portugal, tudo o que for limitações à corrupção são rapidamente ultrapassadas por vazios legais, indefinições ou conversa jurídica da tanga que faz com que no final do dia, se tiveres um advogado que fale bem conversa jurídica da tanga, estás safo. Quando não se existirem vazios legais, bem, então a têm que se recorrer aos senhores do part-time para alterar as mesmas.

Em Portugal, desde que o raio do D. Sebastião foi levar porrada dos mouros, que uma corja de interesseiros, lesmas, sanguessugas, chupistas, mentecaptos, energúmenos, chico-espertos e anormais se instalou no poder com interesse de favorecer os seus e os próximos à custa de todo um povo. Por isso não é surpresa nenhuma tudo isto. Não é surpresa a educação estar um pântano desde o 25 de Abril (isto não querendo dizer que antes era melhor, talvez mais rigorosa no seu programa mas que educação pode governo fascista dar ao seu povo?), não é surpresa os roubos flagrantes de dinheiros públicos, não é surpresa nenhuma a justiça ser uma anedota, não é surpresa nenhuma a saúde se aproximar cada vez do modelo americano em que tens que ser rico (ou seja, ter um seguro) para teres acesso a ela. Nada disto é surpresa, porque no fundo, o português médio já está habituado a ser sodomizado desde a Idade Média. É por isso é que o povo é sereno, é por isso é que somos um povo de brandos costumes. Porque o buraco do anûs já está tão lasso que a malta não sente nada.

Segundo a ex-estrela do FMI e actual estrela de culinária do governo de Passos Coelho que está agarrado ao tacho do acompanhamento das privatizações idealizadas pelo estado português, a RTP2 não tem audiência nenhuma e por isso não tem razão de existir. 

E faz todo o sentido.

Proponho queimar as partituras de Mozart, os quadros do Picasso, os livros do Saramago, Proust, Tólstoi, porque isso faz doer a cabeça das pessoas que os tentam ler, acabem com os museus, acabem com os fados, acabem com a música, acabem com a literatura, porra, acabem com tudo o que obriga o português a pensar porque não interessa ter um povo informado, não interessa ter um povo que pense por si próprio porque nesse caso vão começar a questionar aqueles que o governa. Porque não interessa dar serviço público a essas pessoas, informação, cultura, arte, interessa é encher os olhos com o mesmo lixo que passa nos restantes canais para que eles se mantenham entretidos e com os olhos fechados como uma boa ovelha obediente. 

Pegando na mesma imagem do médico... se o nosso governo fosse médico, tratava toxicodependentes com heroína, porque é isso que eles querem. Mas talvez o governo e todos aqueles que detém o poder de uma forma ou outra não sejam médicos. Talvez eles sejam traficantes e nós os clientes.

Até morrermos de overdose de excremento no nosso corpo e sobretudo nas nossas mentes.

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