quarta-feira, 21 de maio de 2008

Farol

Ao ouvir o comentário do professor Marcelo sobre o mais recente embaraço do nosso primeiro-ministro, o caso do fumador ignorante, fez-me lembrar como a sociedade portuguesa, e porque não, ocidental, continua a dar mais valor à imagem do que ao conteúdo. Esta posta também pode ser considerada um prolongamento da posta "Empurrão", já que vem na linha da mesma, o problema é o mesmo: idiotas desprovidos de cérebro. Também faz referência a outras temáticas já por aqui debatidas. Tenho a impressão que não será a última vez que estas temáticas irão ser referidas.

O primeiro ministro fumou num avião fretado aquando da sua recente visita à Venezuela. A coisa escapou cá para fora e acabou por chegar, inevitavelmente, aos ouvidos da sempre presente e não menos poderosa, comunicação social. De logo surgiram os mais variados protestos e graçolas devido a uma realidade que não é de todo fantasia do país que temos. O país dos filhos de Deus e o país dos filhos da Puta (puta com maiúscula porque não deixa de ser uma senhora). No fundo são dois países no mesmo. Uns podem fazer tudo, os outros comem merda. Não é novidade nenhuma, já era assim no Estado Novo. A elite era a elite e os restantes comiam merda. Como vivemos num estado de direito, democrático, livre e essas tretas todas, agora o povão pode escolher entre comer merda ou não comer merda - isto a propósito da solução apontada pelo ministro das Finanças contra o problema do aumento dos combustíveis (um assunto que também deve vir aqui parar mais tarde ou mais cedo) solução que consistia em os portugueses mudarem os seus hábitos energéticos, ou seja... ou comes merda/pagas ou não comes merda/andas a pé. No entanto o 25 de Abril apenas fez substituir uma elite por uma outra. Outra coisa não seria de esperar, afinal em todo o lado que se vá, até mesmo no reino animal, a divisão é sempre feita entre os mais fortes e os mais fracos. O ser humano, como animal pensante, tentou implementar sistemas que trabalhassem e caminhassem para uma maior igualdade. Claro que há as bestas que fazem com que o sistema trabalhe para eles.
Quando confrontado com esta polémica toda, o primeiro ministro pede desculpa pelo seu profundo desconhecimento pelas leis que a sua maioria parlamentar aprova e falta de respeito pelo povo português e pelo triste exemplo que deu. Quer dizer, não exactamente. Ele apenas pediu desculpa. E aproveitando para fazer um brilharete à Sócrates, tenta sair na mó de cima e anunciar que a partir daquele momento já não vai fumar mais. Não sei qual foi exactamente o objectivo desta decisão, nem tão pouco do anúncio da decisão, além do óbvio de tentar ficar bem na fotografia. As pessoas que vivem exclusivamente da imagem normalmente são ocas e as suas acções são igualmente vazias e muitas das vezes desprovidas de sentido. O sr. primeiro ministro não deixou de fumar pelo tabaco ser prejudicial à saúde. Nem deixou de fumar porque com os impostos sobre o tabaco deixem o mais comum dos portugueses com os bolsos mais leves. Esse de certeza que NÃO é um problema dele. Também acho que o facto de haver cada vez menos espaços para se fumar não foi o que esteve na base da decisão, já que ele parece não ter conhecimento da lei. Não, o sr. primeiro ministro deixou de fumar porque foi apanhado. Porque se não tivesse transpirado cá para fora o que se passou durante o voo, de certeza de que hoje ainda seria um alegre fumador.

A eterna questão de que mais vale parecê-lo do que verdadeiramente sê-lo. Por muito que as sociedades evoluam (?), por muito que estes tipos de palhaços sejam criticados - que o são há já muito tempo - há sempre alguém insiste em viver única e exclusivamente de aparências (há até aqueles que preferem passar fome para manter o Mercedes, o apartamento ou o estilo de vida acima das suas posses). Há sempre alguém mais preocupado com aquilo que os outros pensam de si do que propriamente nas acções que praticam. Mais preocupados com o reflexo do que com o real conteúdo por trás da imagem que é reflectida. Um dos reflexos do triste estado a que esta espécie humana ainda continua mergulhada. Quando um dos nossos poderes máximos a nível nacional dá este exemplo... como podemos culpar o restante do povo, onde estou inserido, da sua ignorância, pequenez e insensatez. Afinal a mensagem que é passada é que no fundo, no fundo, podes fazer o que quiseres, desde que não sejas apanhado. Porque não interessa o que tu digas, nunca é o mesmo que tu fazes. O que tu dizes é para ser aplicado aos outros. Tu fazes o contrário se for preciso. Às escondidas, claro. Senão a imagem estraga-se e depois sem a imagem... não há nada que sobre.

1 comentário:

Clepsidras disse...

Que posso eu dizer? Temos um país de merda, com dirigentes de merda, e é só uma grande pena que eles não sejam recicláveis até aquele estado novo, impecável, quando ainda não sabiam fazer merda, mas que já eram pronuncio de merda.
Como tu sabes, Morbius, meu caro, eu não uso asneiras, ou não muitas vezes, mas este país, consequência, estes maravilhosos dirigentes que deixam de fumar (como se eu acreditasse nisso, agora decide-se e pronto! Larga-se o vicio... bem podiam largar o vicio de se meterem com os bolsos dos portugueses, mas não...) cada vez põem o país pior e nós a calmamente deixarmos que isso aconteça.
Não há empregos, não há segurança, não há dinheiro... as dividas continuam a aumentar para toda a gente e qualquer dia destes, com tantos brasileiros que cá temos, acho que deviamos chamar o Lula para (além de recolher os seus conterrâneos que por cá andam) meter o país um bocado mais na ordem, já que ele está habituado a países muito mal aproveitados...e na Merda.

Enfim... subscrevo o que dizes.